No cenário rural do município maranhense de Ludovico, localizado em Lago do Junco e situado a 300 quilômetros de São Luís, a quebradeira de coco babaçu Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, percorreu 600 metros a pé para registrar seu voto no primeiro turno do pleito, realizado em 4 de outubro.
Contudo, para conscientizar outras mulheres da mesma faixa etária acerca da relevância do sufrágio, ela transita por trajetos consideravelmente mais extensos. Na prática, a atuação da trabalhadora consiste em uma busca ativa destinada a impedir que outras avós e operárias deixem de comparecer às urnas.
Atualmente, o Brasil contabiliza aproximadamente 16 milhões de eleitores com idade superior a 70 anos, montante que equivale a 10,6% do eleitorado nacional. Tal parcela populacional dispõe de voto facultativo desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 e registra índices históricos elevados de abstenção.
A comunidade onde Maria Alaídes reside abriga 150 famílias, mas a mobilização da moradora estende-se a outras cinco localidades da circunvizinhança: São José, Mata dos Reis, Marajá Alto Alegre, Estirão e Pau Seco.
“A gente busca motivar explicando que é muito importante a pessoa registrar o seu voto. Ninguém pode desanimar”, relata Maria, mãe de sete filhos e avó de sete netos.
Na condição de liderança de um movimento interestadual voltado às quebradeiras de coco, ela argumenta que a efetivação de direitos e políticas públicas decorre diretamente da participação popular.
“O voto para mim é orgulho. Voto pela manutenção de direitos e pela democracia”.
Dentre as pautas prioritárias defendidas pela liderança destaca-se o combate às alterações climáticas, fenômeno que afeta de maneira direta a rotina produtiva das quebradeiras.
Projeções indicam a existência de mais de 300 mil trabalhadoras distribuídas pelos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Participação popular
Mulheres motivadas pelas eleições como Maria Alaídes, mesmo inseridas em uma faixa etária na qual o sufrágio não constitui obrigação legal, reverenciam a trajetória histórica de lutas em prol do voto feminino.
Conforme dados apurados pelo Movimento Voto 70+, a taxa de abstinência entre eleitores com mais de 70 anos apresentou retração de quase 10 pontos percentuais durante o primeiro turno.
Informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que a proporção de votantes nessa faixa etária que se ausentaram do pleito passou de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026.
Com o propósito de intensificar a redução da abstenção no próximo domingo (25), o coletivo apartidário conduz a campanha Vovó Vota, iniciativa que fomenta a aproximação entre avós e netas durante o processo eleitoral.
Entre os motes divulgados, destaca-se a orientação de que mesmo os cidadãos que tenham deixado de comparecer ao primeiro turno encontram-se aptos a participar da segunda etapa, sem qualquer espécie de impedimento.
Agora, eu vou
Radicada em Orizona, município situado a 130 quilômetros de Goiânia, Maria Albino Costa, de 85 anos, absteve-se do primeiro turno por considerar complexo o ato de votar diante do elevado volume de dígitos exigidos pelas urnas. Naquela data de 4 de outubro, o eleitorado definiu representantes para os cargos de deputado, senador, governador e presidente.
“Mas dessa vez, é só para o cargo de presidente. Então, eu vou desta vez. Minha filha e minha neta vão me levar. Preciso garantir nossos direitos. Eu faço questão agora.”
Com passagens profissionais pela zona rural, além de atuações como merendeira e empregada doméstica, a aposentada declara rejeitar a omissão cívica em virtude do longo período de privação do sufrágio vivenciado sob o regime ditatorial (1964-1985). Ademais, manifesta o intuito de servir de exemplo aos sete filhos, 22 netos, seis bisnetos e um tataraneto.
Sua filha, a docente Sandra Oliveira, de 48 anos, pioneira na família a concluir o ensino superior, expressa admiração pela trajetória materna. A professora costuma relatar o histórico familiar em suas aulas ministradas em zonas rurais e urbanas, contextos nos quais já presenciou manifestações de caráter machista por parte de discentes contra a participação política feminina:
“Eu conto histórias de minha mãe e de outras mulheres que não tiveram direitos. A gente precisa garantir nosso espaço”.
Tive medo
Residente em Olinda (PE), a professora aposentada Maria José Cantarelli, de 80 anos, também não compareceu às urnas no primeiro turno, acumulando um intervalo de 12 anos de afastamento das eleições.
Após reflexões e diálogos mantidos com os filhos e uma neta no âmbito doméstico, contudo, concluiu que a conjuntura atual demanda a abertura de uma exceção, motivada pelo receio gerado pelo clima de polarização emocional verificado nos espaços públicos.
“Há ofensas e agressões que fazem com que a gente tenha medo. Existe muita violência nas ruas e os ânimos estão muito acirrados”, pontua.
Embora tenha extraviado seu documento impresso de inscrição eleitoral, a aposentada realizou o download do aplicativo e-título para viabilizar seu sufrágio em 25 de outubro.
Maria José relata ter preservado, ao longo da vida, os comprovantes de votação anteriores, pretendendo retomar o hábito de portá-los em sua carteira. A neta, homônima e com 19 anos de idade, celebrou a resolução adotada pela avó.
Voto por direitos
Exemplos inspiradores não faltam a essas mulheres, a começar pela residência de Francisca Barroso Monteiro, de 84 anos, estabelecida atualmente na cidade maranhense de Nova Iorque (localizada a 560 quilômetros de São Luís).
A idosa sustenta que o exercício da cidadania viabilizou sua luta para assegurar o acesso de seus 10 filhos à escolarização.
“Eu sempre dizia ao meu esposo que eles iam estudar. Eu não estudei porque não tive oportunidade. Mas meus filhos sim. Por isso é muito importante votar”.
Sua expectativa reside na eleição de mandatários comprometidos com o suprimento adequado de medicamentos e mantimentos destinados a crianças e idosos.
Dificuldades
No Rio de Janeiro, Prazeres Maria da Silva Antunes, de 72 anos, expressa o desejo de não enfrentar os mesmos transtornos experimentados no primeiro turno, ocasião em que deparou com extensas filas: “demorou um tempo para começarem a chamar os mais idosos”.
Situação análoga ocorreu com a aposentada paulista Beatriz Cintra Labaki, de 79 anos, na capital paulista, onde precisou transpor lances de escadaria para acessar sua seção eleitoral.
Normativa expedida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) assegura às pessoas idosas o direito ao atendimento preferencial nos locais de votação, dispensando-as da permanência na fila regular.
Ademais, os locais de votação devem implementar condições de acessibilidade voltadas a garantir autonomia e segurança durante a operação de voto.
Auxiliada pelo filho no deslocamento até a cabina de votação, Beatriz ponderou em sua escolha a coerência dos candidatos frente a pautas ligadas à saúde e à educação.
“Não adianta ser eleito e ficar sentado lá. Tem de ser atuante e gostar de trabalhar com a população”.
Memórias
No dia 25, os eleitores idosos também carregarão consigo a consciência histórica acerca da relevância do sufrágio, sobretudo por terem permanecido privados da escolha direta para a Presidência da República por mais de duas décadas.
Suely Mendonça, aposentada carioca de 79 anos, confessa a emoção sentida ao se dirigir à sua seção eleitoral:
“É o momento em que estou me sentindo mais participante da vida do país. Sempre estudei na rede pública, do ensino básico ao ensino superior. Teve o golpe militar e eu estava estudando”.
A eleitora recorda que o período foi marcado por proibições impostas a docentes quanto à menção de letras musicais, além da censura prévia aplicada a produções cinematográficas e peças teatrais.
“Eu participei das Diretas Já, o pontapé inicial da redemocratização. Eu nunca associei meu voto a um partido. Eu escolhia o candidato pelos compromissos assumidos com a gente e os que tinha lutado contra o regime ditatorial”.













