sexta-feira , 30 outubro 2026
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Protesto de estudantes da UFF deu início à mobilização pela virada de Lula

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© Tomaz Silva/Agência Brasil

“O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento”, dizia o cartaz de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) que convocava para um protesto em 5 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno das eleições.

Publicado nas redes sociais pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e pela Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambos do curso de direito, o anúncio buscou canalizar a angústia desses jovens com o resultado das urnas e deu origem a uma passeata que reuniu centenas de pessoas em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em uma chuvosa noite de segunda-feira.

Moradores desceram dos prédios e transeuntes se juntaram aos estudantes na caminhada, que passou pela reitoria da UFF, no bairro de Icaraí, e retornou à Faculdade de Direito, no Ingá.

O protesto foi gestado na noite de domingo (4), diante do resultado eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro (PL) tinha recebido 47% dos votos válidos, e o presidente Luiz Inácio Lula, 45%. O placar inspirava preocupação dos estudantes, que viam Flávio como uma ameaça à educação.

“Ele tinha como proposta tirar as universidades do Ministério da Educação e passar para o de Ciência e Tecnologia, que tem menos verbas”, explicou a universitária Valentina Cruz, que é diretora do Centro Acadêmico de Direito.

A proposta, de fato, constava no plano de governo do candidato do PL. Para Valentina, estava clara a necessidade de reagir ao resultado e iniciar uma mobilização por diálogo dentro da universidade.

“A vitória de Flávio claramente significaria corte em todas as áreas das universidades, da infraestrutura ao auxílio permanência, um roteiro conhecido”, avaliou Valentina, em relação ao governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Mobilização de estudantes da UFF in Niterói após o 1º turno. Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação

Em retrospecto, Simão Gabriel Adorno, membro da atlética do direito, observou que a reação ponderou a experiência recente nas instituições públicas durante o primeiro mandato de Jair Bolsonaro.

Ele recorda que a UFF figurou entre as primeiras federais a sofrer contingenciamentos sob a acusação de promover “balbúrdia”, conforme declaração do então ministro da Educação, Abraham Weintraub. O ex-presidente endossou as críticas da pasta, classificando os universitários como “idiotas úteis” e “massa de manobra”.

Os discentes protestaram à época, mas não conseguiram barrar o bloqueio de até 30% do orçamento, o que comprometeu a operação institucional e as bolsas de pesquisa, essenciais para alunos de baixa renda, predominantemente negros e periféricos.

“Nós vimos como o bolsonarismo atacou as universidades na gestão do Jair, como a universidade foi vilipendiada, como eles desprezam as instituições de ensino público. A gente sentia que estava arriscando a perder nossa faculdade, a nossa casa. A educação pública estava em risco”, avaliou.

Os acadêmicos de direito também repudiaram a anistia defendida por aliados de Jair Bolsonaro, detido por chefiar uma articulação golpista que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes. Flávio Bolsonaro havia prometido a soltura do pai e sua participação na subida da rampa presidencial em eventual posse.

Os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simão Gabriel, João Paulo Pimenta e Valentina Cruz. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Da noite para o dia

Na noite da apuração, os estudantes articularam-se para agendar o ato na segunda-feira.

“Precisávamos adotar medidas. O plano inicial previa um escopo interno, restrito a alunos, professores e representantes de entidades como a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], mas o fluxo cresceu e alcançamos centenas de participantes”, relatou João Paulo Armando, outro diretor do centro acadêmico de Direito.

Na ocasião, o grupo desfraldou a bandeira do Direito Antifascista, estandarte confeccionado em 2018, antecedendo a primeira eleição de Jair.

“Para nós, do Direito, a situação [da vantagem] configurava um absurdo, principalmente diante da postura dele [Flávio] contrária aos direitos civis e à Constituição [Federal], além da apologia à Ditadura [político-empresarial-militar]. Compreendemos a gravidade desse histórico”, declarou o jovem, evocando Fernando Santa Cruz, ex-aluno da faculdade e militante político executado pelo regime militar em 1974.

Mobilização de estudantes nas ruas de Niterói após o primeiro turno. Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação

Após a difusão da convocatória, ilustrada com uma fotografia do presidente Lula ao lado de jovens, discentes de outros cursos solicitaram adesão ao movimento.

“Constatamos a ameaça ao país, o risco institucional à democracia e as manobras do governo Trump [presidente dos Estados Unidos], optando por constituir um polo de resistência no Sul Global”, pontuou Cauê Moraes Marins da Silva, de 22 anos, dirigente do Centro Acadêmico de Relações Internacionais Sérgio Vieira de Melo, também vinculado à UFF.

Ao cair da tarde, a adesão superou as projeções iniciais e lotou o pátio, motivando a decisão pela passeata. Valentina relatou ter presenciado uma senhora idosa, aposentada e com o auxílio de uma bengala, aproximar-se visivelmente comovida.

“Ela permaneceu conosco sob a chuva e afirmou que o nosso futuro não poderia ser entregue à extrema-direita.”

Contudo, o ato também registrou episódios de hostilidade. Cauê lembrou o lançamento de ovos contra os manifestantes a partir de sacadas de edifícios.

“Diversas pessoas alinhadas ao campo progressista e ao PT sofreram agressções e até óbitos neste pleito. A violência revelou-se concreta, o que é inadmissível no regime democrático”, pontuou. “Na manifestação do dia [5], atiraram ovos contra o nosso ato pacífico, mas prosseguimos.”

Os estudantes de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Cauê Moraes Marins da Silva e Maria Eduarda Pasche Alves. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Atos pelo país

A mobilização deflagrada naquela segunda-feira expandiu-se ao longo da semana. Na quarta-feira (7), estudantes cariocas ocuparam ruas da região central da capital fluminense em nova caminhada de alerta contra o desfecho eleitoral, tendo a defesa democrática e o ensino público de excelência como eixos centrais.

Paralelamente, protestos replicaram-se em centros urbanos nacionais, a exemplo de Brasília, onde uma multidão concentrou-se na Esplanada dos Ministérios. A série de atos integrou a campanha popular voltada a reverter o quadro eleitoral, priorizando a captação de votos nulos e a conversão de abstenções.

Milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“O triunfo de múltiplos expoentes do fascismo e da extrema-direita gerou apreensão”, relatou Isabela Casalini, de 21 anos, acadêmica de desenho industrial da UFF.

Ela mencionou ter emitido o título eleitoral aos 16 anos com o propósito de barrar Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. “Em 5 de outubro, imperava um sentimento de revolta”, recordou.

A aluna avalia que a manifestação funcionou como catalisador para a ativação do corpo discente, reiterando sua disposição de ocupar as ruas.

“Retorno hoje para celebrar nossa vitória e demarcar que manteremos nosso posicionamento nos próximos anos”, declarou em entrevista à Agência Brasil.

Mobilização de estudantes da UFF em Niterói após o 1º turno. Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação

Protagonismo estudantil

O engajamento juvenil na inflexão de cenários históricos não se restringe a 2026, analisa a historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), mestre em Comunicação pela UFF e jornalista da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) Carolina Barreto, apontando o segmento como vetor contínuo de transformações.

Especialista em movimentos sociais, Barreto pondera que, previamente ao regime militar de 1964 — marco de maior projeção e repressão à militância estudantil —, a União Nacional dos Estudantes (UNE) já atuava em oposição ao nazifascismo e em prol da fundação da Petrobras e da soberania nacional.

“Durante os anos 1990, destacou-se o movimento Fora Collor, [pleiteando o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello]; já em junho de 2013, o movimento estudantil retornou à cena com pautas difusas, porém fundamentais, abordando a gentrificação, o encarecimento urbano e os gastos elevados em eventos internacionais”, pontuou Barreto.

Estudantes fazem protesto em apoio ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva em João Pessoa. Foto: Ascom/ADUFPB

A historiadora assina a obra “Quando 2013 encontra 1968”, na qual contrasta a cobertura jornalística contemporânea com a repercussão da Passeata dos Cem Mil, ocorrida meses após o assassinato do estudante Edson Luis pela ditadura.

“O único interstício de ausência estudantil ocorreu na década de 1980, período marcado pela ascensão do novo sindicalismo em São Paulo”, destacou a pesquisadora.

Para o advogado Felipe Santa Cruz, filho do militante Fernando Santa Cruz e ex-aluno de direito da UFF, a mobilização demonstra que os estudantes ocupam a vanguarda na oposição ao autoritarismo.

“Orgulhamo-nos dos alunos da UFF e de todo o país”, afirmou Felipe, que cursa doutorado na Universidade Federal Fluminense e presidiu a OAB Nacional e a seccional fluminense da ordem.

“Os jovens da UFF uniram-se de forma espontânea, indo às ruas em um gesto legítimo de indignação frente aos riscos institucionais, assumindo o controle de sua trajetória”, declarou. “Tratou-se de um ato exemplar”, concluiu.

Felipe contava com apenas 2 anos de idade quando seu pai integrou a lista de desaparecidos políticos, cujas circunstâncias permanecem sem elucidação definitiva.

Milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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